quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A vida começa aos quarenta?

Sempre ouvi por aí que a vida começa aos quarenta. Achava um exagero, desculpa de quem quer dourar a pílula. Mas um dia parei pra pensar em minha vida após os quarenta.
Após os quarenta cursei a faculdade que queria e precisava cursar e ainda ingressei em um curso de extensão em Teologia. Após os quarenta descobri a graça de ser avó de duas joias, Milla e Mateus, que enchem a minha vida de amor cada vez que sorriem para mim. Descobri que podia ir e vir sem precisar pedir licença a ninguém, criei asas e saí voando por aí. Ultrapassei fronteiras. Primeiro dos meus sonhos, depois da minha cidade, do meu Estado e até do meu País.  Conheci as pessoas mais interessantes que podia conhecer e algumas delas permanecerão em minha vida até o fim, sem dúvida. Redescobri o amor de forma plena e permanente. Apaixonei-me outra vez  por Jesus!
Gente, não há dúvida! A vida realmente começa aos quarenta. Não que não haja vida antes, mas é ali, a partir dos quarenta, que começamos a perceber o que realmente importa viver. É a partir da maturidade que só a idade nos permite, que olhamos o mundo sem os filtros da ilusão e conseguimos ver a verdadeira beleza que há em todas as coisas. E a feiura que há em outras. É ali que vivemos uma fé madura, despida de alegorias e fantasia de criança.
Agradeço muito a Deus que me permitiu chegar e ultrapassar os quarenta anos. Não trocaria a idade que tenho, definitivamente. Só tenho a agradecer. Aos amigos que fiz, aos amores que vivi e de novo ao meu Deus pela fé que me sustenta.
Claro que tem o lado negativo. As rugas, as dores nas articulações, as falhas de memória... Ah! Mas quem liga pra isso? Rugas são a marca do tempo em nós, como mapas que nos dá acesso ao que somos e nos levam a tudo que vivemos. E quando incomodam demais sempre há um dermatologista de plantão. As dores a gente dribla com anti-inflamatório e exercícios, e quanto às falhas de memória... Quem disse que quero lembrar de tudo?
Nesse Janeiro faço mais que quarenta. Faço cinquenta anos! (Uau!) rs E só quero dizer que está valendo a pena. Se a vida começa aos quarenta, ela deve chegar ao ápice aos cinquenta.
Que venham as alegrias, as tristezas, as batalhas, as lutas, tudo!  Que venha a certeza de que estou vivendo plenamente tudo o que Deus me deu. Porque quando a cortina se fechar, quero poder dizer que fui feliz. Porque acreditei que ser feliz era viável, mesmo quando parecia impossível.

Que venham mais cinquenta. Ou dez, ou cinco. Não importa. Eu quero é VIDA!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Se eu pudesse voltar no tempo...


Se eu tivesse o poder de fazer o tempo voltar, faria tudo diferente do que fiz. Como diz o poeta “trataria de correr menos riscos”. Seria mais prudente, menos curiosa.  Criaria juízo. Entenderia que toda paixão é efêmera por essência e aniquilaria todas as paixões. Evitaria olhar nos olhos. Conteria a imaginação, a louca e vil imaginação, e viveria apenas o provável, o possível, o óbvio. Podaria todas as asas que teimassem em nascer. Arrancaria pena a pena, sem pena.
Ah! Se eu pudesse voltar no tempo... Desacreditaria em sonhos. Os sonhos são perigosíssimos! Levam-nos aos lugares que queremos mas não ensinam como voltar. Evitaria os doces, os molhos picantes, o vinho, as carnes vermelhas, as massas. Abusaria das saladas, alimentos integrais, orgânicos, sucos verdes e tudo isso que, dizem, prolonga a vida.
Mentira!
Se eu pudesse voltar no tempo faria tudo igual. Não mudaria uma vírgula de lugar. Seria tão atrevida quanto fui. Choraria e faria chorar. Riria e faria gargalhar. Diria “eu te amo” quantas vezes tivesse vontade. Investiria tanto quanto possível em sonhos, todos eles, os loucos, ou vis, os insanos, os prováveis e os impossíveis. As asas se arrastariam pelo chão, e se cortassem, cultivaria outras maiores ainda. Imprudência seria minha cachaça diária. Juízo, não criaria. Se nem sei de que se alimenta! Quanto às paixões, o que é a vida sem elas? De que vale estar viva sem estar apaixonada pela vida? Se frutificaram ou não, é outra história.  Se fizeram rir ou chorar, não importa. Bom mesmo é erguer os braços, olhar o céu e gritar sem medo de errar: Meu Deus, como eu fui feliz!


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Fera


Havia em mim um lago sombrio, estranho. Um mar revolto, perigo mortal às almas bondosas, carentes e inocentes.
Havia também uma fúria insana, selvagem, de animal ferido acuado, faminto, sedento. Olhava de lado, sempre à espreita e desconfiado.  
Talvez ainda haja e durma apenas. Talvez, fingindo-se domesticada, a fera (quem dera!), com o olhar vazio e faminto de esperas, busque apenas o momento certo pra ressuscitar.

Nós (e laços) e os outros


        São tantas vidas entrelaçadas às nossas, tantos fios, laços, nós, que não encontro mais o próprio rastro, nem sei onde começo só nem onde me embaraço a ti, a outros, a qualquer um.
De tanto dar-me, estanquei e, vazia, sigo em frente, tateante, em curso inverso, atropelada pela tua razão tão aparente, sem saber o que faço com as bobagens que eram nossas e guardei  achando que íamos usar algum dia.
Não sei mais voltar. Ao perder o fio, me perdi e perdida estou. Cheia de culpas, vazia de sonhos, te pedindo licença pra continuar...



Era...

O tempo, esse senhor impiedoso e belo que a ninguém perdoa ou salva, que de ninguém esquece. Que enfileira sonhos como contas em um colar, só pra depois usar e arrebentar o fio, displicentemente. Que passa e faz estragos, que a tudo muda e transforma e destrói.
Tanto que, mesmo que me olhem com atenção desmedida e esquadrinhem meu coração com a mais potente visão de raio X, nada encontrarão a não ser vestígios de um ridículo par de asas, herança maldita de um passado distante, já um tanto disforme e desbotada, mas que teima em seguir comigo instigando-me a lembrar de um tempo  menos impiedoso, em que, a despeito das quedas e feridas abertas sangrando, ainda  me permitiam voar.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Tanta saudade...



Mãe, teu cantinho está tão vazio sem você...
Tuas plantas estão sendo aguadas. Aquela planta esquisita, que eu nunca lembro o nome e só falo errado te fazendo sorrir,  está cheinho de frutos. Aquela outra que dá cachos  de flores cor de rosa que você tanto gosta não tem uma flor sequer. Acho que está esperando a tua volta para voltar a florir. Afinal ela te via todos os dias ali, no mesmo cantinho, onde você passava as suas horas. Como iria florir se você não está lá para admirá-la? Ela achou melhor esperar você voltar... Parece que este ano teremos muitas goiabas e mangas. Você não gosta muito de goiabas, sempre as guardava para mim. Mas de mangas você sempre gostou. Pois então se prepara para se empanturrar delas. O pé está todo florido. Este preferiu florir agora para te oferecer os frutos na sua volta.  As galinhas estão maluquinhas como sempre. Botando ovos em todo o canto, roubando a comida dos gatos. Você não está aqui para colocá-las em seu devido lugar... são umas abusadas, só obedecem você. Ahh! Tem um sapo novo rondando. Este também está roubando a comida dos gatos. Ainda está sem nome. Como você sempre gostou de nominá-los, resolvi esperar você voltar. Por enquanto ele fica sendo "Sapo" mesmo.
Volta logo, vai. Está tudo quieto demais sem você aqui. Milla nunca mais brincou com Pou. Ontem ela falou que estava com saudade da senhora porque a senhora era muito boazinha e  deixava ela comprar roupas caras para o Pou.
Volta logo, mãe, por favor. Chega de descansar aí nesta cama, neste silêncio.  Aqui é muito mais divertido. Tua cama cheia de almofadas coloridas, como você gosta, está arrumadinha. Te prometi uma cortina florida e vou fazer para alegrar mais ainda o seu quarto. Tem uma família enorme te esperando. Muito barulho de criança, muitas risadas contidas esperando você voltar.  Não entende que essa família perde a graça sem você? Até das suas birras a gente sente falta.
Ah mãe, fica boa e vem pra casa! Está tão difícil levantar pela manhã e seguir a vida sem você aqui perto de nós. Está tudo fora do lugar. A casa está silenciosa demais. Nós estamos silenciosos demais. É difícil gargalhar sabendo-te aí neste lugar tão impessoal, tão frio. 
Volta, mãe... Está muito difícil ser feliz sem você aqui.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nem tente...

"Nas asas do tempo, a tristeza voa..."
                            La Fontaine


Às vezes, muitas vezes, me pego com olhar fixo no nada. Pensamento vazio, sem rumo nem objetivo, é como se me tele-transportasse para o inexistente. Acredito que seja em momentos como esse que deixamos a porta da alma aberta. E somos invadidos. Porque é nesses momentos que tenho, quando retorno, os pensamentos mais mirabolantes.
Li em algum lugar que a mulher pensa por metáforas. O homem por metonímias. Entendi mais ou menos assim: a mulher forma pensamentos, compondo quadros mentais que se montam em uma simbologia sem fim, como a arte. O homem, pragmático, quer princípio, meio e fim. Para que serve a minha descoberta? Para droga nenhuma. Mas é um meio de começar a observá-los melhor. Em silêncio.
Quero o silêncio para poder ver quem é quem. Fingir com palavras é fácil. Quero ver de perto os gestos, as expressões, a lágrima escondida, o tremor na voz. O olhar que encontra, fixa e desvia numa fração de segundos, mas tarde demais. O que vou fazer com tudo isso, não sei. Nada mais espero ou desejo e o futuro a Deus pertence. Eu ando triste demais para fazer planos. A vida não está merecendo ser levada tão a sério. Está repleta de sentimentos bipolares e gostos amargos.
Desisti de tentar decifrar o meu caos, portanto, nem tente.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ser frágil. Ser forte.

"Eu sou feita de tão pouca coisa e meu equilíbrio é tão frágil, que eu preciso de um excesso de segurança para me sentir mais ou menos segura."
                                                                                                                               Clarice Lispector


Já perdi a conta das vezes que entrei aqui tentando colocar palavras que traduzissem o que sinto e não consegui. Os grandes escritores, os poetas principalmente, têm uma enorme facilidade em descrever sentimentos. Eu não. Geralmente quando escrevo vulgarizo o que sinto e digo quase sempre o contrário do que quero dizer. Por isso quase sempre textos tão amargos. Não tenho o traquejo que queria ter com as palavras. Elas me traem sempre. Falam sempre o que querem e quase nunca o que ordeno. Mas olhando para trás percebo que os meus melhores textos foram aqueles escritos sob grande emoção.  Ódio ou amor. Dor ou alegria. Sempre em doses cavalares. Preciso disso para que saia alguma coisa que preste. Nada extraordinário porque, repito, não sou escritora. Apenas me atrevo a manter  este blog, para ter ao menos uma válvula de escape. Senão explodo. Senão implodo. Sou uma pessoa muito difícil, admito. E cheia de defeitos. Um deles é não saber esperar. Sou apressada, cheia de urgências. Falo pelos cotovelos. Sofro de véspera. Preciso de certezas. De prazos. De promessas. De sorrisos. De palavras. De carinho. De atenção. De gritos. De safanões. De broncas. De qualquer coisa que não seja a inércia, o silêncio, a indiferença. Queria muito ser diferente, juro! Ser menos ansiosa, menos emotiva, mais madura e tenho tentado. E depois de muito tempo tentando descubro que só há um jeito de conseguir. Um jeito radical e doloroso, mas pragmático. Perdão, mas não há outro jeito. Ali, “é impossível ser feliz sozinha”. Fora dali talvez seja possível. Cheguei à conclusão de que só estava lá para falar de mim a quem não queria ouvir. Não sei se estou fazendo a coisa certa, talvez esteja em mais uma fase de improváveis acertos e certeiros erros, quem sabe? Mas essa é a única coisa que nunca havia tentado. Se estiver errada, volto atrás. Não tenho o menor problema em fazer isso. Volto atrás e começo tudo de novo. Quem disse que tenho que acertar sempre?  Li em algum lugar que às vezes precisamos bagunçar para organizar. Então é isso: baguncei tudo. Tomara que consiga encontrar, no meio dessa bagunça toda, o que de bonito sobrou. Porque bonito era! A despeito de todas as dúvidas que tenho, disso não tenho a menor dúvida.

sábado, 26 de abril de 2014

Padre e poeta. Ou padre-poeta.

Ele é um jovem padre. Seu viver é pautado pela fé e pelo amor. Fé no Deus a quem dedica a sua vida e amor ao irmão quando lhe leva a Palavra, o Corpo e o Sangue desse Deus. Pode também ser um escritor. Um compositor. Um poeta. Pode ser o que quiser. E sendo tudo isso não deixa de ser o que é em sua essência: um padre. A pessoa de Cristo. Em seu facebook textos lindíssimos, criados por seu olhar sensível que de tudo consegue extrair poesia, qualidade inata dos poetas.
Padre , muito obrigada por permitir-me dividir com os meus amigos, a sensibilidade que há em seus textos. Tenho certeza que muitos serão seduzidos e abençoados pela beleza e  santidade de suas palavras. 
Obrigada por emprestar-me a voz. A minha, algumas vezes, é silenciada por excesso de realidade.


Padre Paulo César Assis


“O silencio pairava noite afora: haveria lugar para algo mais além das lagrimas? Seria possível um detalhe, uma palavra, um sinal que tirasse o olhar da dor e o pusesse para além do que não podia/queria acreditar? Apesar dos tantos "por quês", a vida saberia ser mais? A noite escura percorria a vida toda na forma de pergunta-calada, engolida, indigesta: a Vida, por acaso, teria se calado?... O silêncio incômodo parecia a resposta plausível... As palavras engolidas, atropeladas pelo choro, teriam algo a dizer além do próprio som dramático?
E, assim, a noite se estendia, alargava o silêncio até fazer madrugada: aquela noite durou toda uma existência... O choro se desprendia do olhar e dava nome a cada coisa que ficou... Recordando os passos até o altar da dor o coração, aos poucos, foi entendendo outros sinais, outras formas que fazem o Amor permanecer: O Amor, ao contrário da dor, vive de recomeços; é o que faz recontar cada lágrima derramada com o sabor de 'tudo valeu a pena'... Assim, "recomeçado", o coração entendeu que a dor, inevitável, não deve roubar o gosto bom da Vida; soube, com vestes de páscoa, re-colher os sinais por onde a Vida, é-terna, se fez ao largo, modo rio quando descobre o mar...ou: "só o amor me ensina onde vou chegar"

O amor era explicado naquelas palavras que supunham um outrora e memorizado em risos de outros tempos... era dito com a densidade de quem se perdeu quando lembrou do vivido... o amor residia naquelas palavras demoradas, elasticamente subsistentes, mesmo quando não percebendo seus efeitos ou condicionamentos: o amor demora porque não se encontra nas explicações que o presente lembra e, re-sentido, sente a ausência de cada palavra e chora o não-haver de cada coisa que a memória sabe, ainda, existir...o amor é uma palavra construída nos lençóis de ausência, porque tudo do amor carece [um pouco de] distância..

 (Facebook: Paulo Cesar Assis)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Condenada à vida



É outra vez madrugada como tantas outras vezes. Olho pela janela do meu quarto a lua enorme ainda prata lá fora e, enquanto espero as sombras que a mancharão de sangue, concluo: estou condenada à vida. Coisa estranha essa constatação. Estranha essa angústia de estar viva e nada poder. Frustração pela incapacidade de dar o que sobra, derrama, explode, não cabe em mim. Talvez por isso tudo isso ainda tome o pensamento, roube o sono, invada os sonhos, se aposse deles. Mais estranho ainda é nutrir, a despeito de tudo, a esperança de um dia ver brotar dos impulsos contidos, olhares desviados, palavras não ditas e de toda lágrima caída, um riso sincero, um brilho no olhar, um sim sem falar.
Se houvesse um jeito de me fazer livre de tudo isso... Livre e útil. Ou fazer-me terra e  albergar semente ou fazer-me muda e florescer contente, se houvesse...
Mas a culpa, ah! a culpa não é minha!  Não foi meu o medo que fez surgir este mundo, o MEU mundo, abstrato, sombrio, profundo. Onde é sempre noite, sem lua, sem fim. Onde vivo e espero, pacientemente, debelar a tristeza acoplada a mim e reinicio tantas vezes mesmo no fim para, outra vez e mais uma vez, amanhecer. 

terça-feira, 18 de março de 2014

Em toda parte




Invado outra vez o mesmo espaço e, trôpega, procuro uma palavra que me livre do embaraço da minha incompletude. Calo-me e se falo me consome o pavor de afastar na ânsia de reter. Quantas vezes volto ao ponto de partida? Quantas vezes busco sinais ambíguos e vestígios de outra vida, e se vida houve ou se há vida?  Constato que todas as coisas fogem de tudo o que aprisiona e apenas sobrevivem as que vivem na memória (imperecível) de quem ama. 
Num lampejo de passado eu sei,  eu sinto. Se fechar os sentidos para o barulho do entorno posso sentir: está em toda parte, mas não há em parte alguma. Dissolve e coagula, como a luz que invade a escuridão que sufoca a luz. Sem alternativa que me salve, poetizo...
Eu busco uma palavra sublimada, em sonho imaginada, reticente, que me invada, que me pesque do abismo, da dor mais lancinante e contundente.  E assim, no seu silencio contumaz, na explicita nudez que há na ausência, me firo outra vez, e sangro e morro, no fio afiado da presença.

terça-feira, 4 de março de 2014

Os clássicos




Há dois anos investi uma quantia ínfima em um verdadeiro tesouro. Passei meses colecionando literatura clássica, a um custo tão baixo que não acreditava cada vez que recebia pelos correios, meus três exemplares mensais. 
Ao todo foram 35 livros de autores das mais diversas nacionalidades. Alguns, velhos conhecidos e amados, a exemplo de O Retrato de Dorian Gray, Madame Bovary, Crime e Castigo, A Metamorfose, a Divina Comédia, Orgulho e Preconceito, O Primo Basílio e outros que li e reli algumas vezes. O fato de trabalhar em uma Biblioteca me facilitou muito o acesso a eles, os clássicos.
Confesso que alguns me custaram.
Em Os sertões, de Euclides da Cunha, levei meses para conseguir vencer a aversão causada pela  introdução, extremamente técnica, e adentrar nos mistérios do beato Antonio Conselheiro, líder de um povo determinado, que enfrentou as tropas do governo, em luta desigual, até a morte, por um ideal.
Crime e castigo, de Dostoiévski. Neste, levei quase um ano para concluir a leitura. Não é um livro difícil de entender. Monótono em algumas partes por conta dos diálogos infindos, na verdade é um enredo bem simples. Alguém, movido por uma extrema necessidade física,  comete um crime e tenta justificar-se. Difícil é conseguir explorar a alma de cada personagem no decorrer da história, seus conflitos, mistérios, medos e razões e conseguir fazê-los revelar,  um pouco que seja, de suas reais intenções. 
O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, foi o que li mais rapidamente, comecei em uma viagem de férias, no ônibus que me levaria a Salvador e, durante as seis horas que durou o percurso, não consegui parar de ler. Quando cheguei ao fim, da viagem e do livro, estava completamente deprimida. É um livro denso. Há que se preparar a alma para passear por ele incólume. Este livro é uma crítica do autor a uma sociedade onde o que mais importa é a aparência, que determina o que é socialmente relevante ou não, e que vale muito mais do que os valores morais. Vítima de preconceito em sua época por ser homossexual  Wilde foi condenado a dois anos de prisão e trechos do livro foram usados como prova contra ele.
A metamorfose, de Franz Kafka, li de uma sentada. Extremamente envolvente, me vi defendendo aquele inseto asqueroso e desejando poder trazê-lo para casa e tirar a maçã entranhada em seu casco. Franz disse em um de seus discursos que “o livro deve ser o machado que partirá o mar congelado dentro de nós”. Assim me senti com A Metamorfose. Pude perceber ali a essência humana no que se refere ao tratamento com o outro, sobretudo se esse outro se torna um "fardo". Concordo com o autor quando ele diz que “precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente”. Este me angustiou.
Li quase todos da coleção. Mas pretendo reler e talvez mais de uma vez. Porque um clássico para ser entendido é preciso que o leitor esteja pronto para ele. Não me sinto pronta para metade dos livros que tenho. Sei que para muitos terei que me despir da arrogância de achar que sei alguma coisa, até porque de nada sei. Para outros terei que abrir o coração ou será uma leitura mecânica, superficial. Ainda há aqueles que não se revelam na primeira, nem na segunda leitura.
Percebo que há alguns livros, lidos pela segunda vez, tão diferentes de quando foram lidos pela primeira vez, que quase acredito que o autor o reescreveu, enquanto eu estava  distraída. Em cada idade uma percepção, quando se trata de literatura clássica. Toda releitura é uma nova descoberta porque eles nunca terminam de revelar aquilo que têm para dizer.
A linguagem empregada em uma obra clássica pode determinar a maior ou menor dificuldade de leitura. Por isso sempre indico na biblioteca em que trabalho, a leitura das adaptações para os leitores que estão iniciando. É claro que é importante terem depois contato com o texto original ou com uma tradução fiel ao original, mas para um primeiro contato, para que se interessem e apaixonem, é importante que  comecem com as adaptações e com uma linguagem mais coloquial.
Finalmente aconselho a quem tiver realmente interesse e, principalmente, a quem não tiver que insistam, comecem a ler trechos, adaptações, até estarem prontos para um mergulho no maravilhoso mundo dos clássicos mundiais.
A seguir, aí estão alguns  títulos que escolhi, entre os que tenho em minha pequena biblioteca particular, e que sugiro para um começo.

Crime e castigo – Fiódor Dostoiévski
Madame Bovary – Gustave Flaubert
O retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha –  Miguel de Cervantes
Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
A metamorfose – Franz Kafka
A divina comédia – Inferno – Dante Alighieri 
Orgulho e preconceito – Jane Austen 
O primo Basílio – Eça de Queirós 
O morro dos ventos uivantes – Emily Brönte
Outra volta do parafuso – Henry James 
O assassinato e outras histórias – Anton Tchekhov 
Ilusões perdidas –  Honoré de Balzac 
Os sofrimentos do jovem Werther – J. W. Goethe 
Mensagem – Fernando Pessoa
Hamlet, Rei Lear, Macbeth – William Shakespeare
Coração das trevas – Joseph Conrad 
O vermelho e o negro – Stendhal
O falecido Mattia Pascal – Luigi Pirandello
O homem que queria ser rei e outras histórias – Rudyard Kipling
Os lusíadas – Luís de Camões
Grandes esperanças – Charles Dickens
No caminho de Swann – Marcel Proust
Odisseia – Homero
Moby Dick - Herman Melville 
Cândido – Voltaire 
Os Malavoglia – Giovanni Verga 
Os sertões –  Euclides da Cunha
Contos de amor, de loucura e de morte – Horacio Quiroga 
Infância –Maksim Górki 




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Recônditos...



Penso tanto no querer que o pensar tornou-se insalubre de tão nefasto. 
E entre os momentos cheios de querer, há espaços vagos e brancos onde a mente tenta aceitar a idéia do não possuir.
Convencer-se da efemeridade dos seus disparates. Preencher os espaços brancos com alguma razão.
Escrevo, então. Espalho no papel o que me mata e deixo que se perca por aí.
A única maneira de abrir o peito para o quase infinito que é o mundo.
Não emito opiniões quando escrevo, ao contrário, omito-as. Porque de amor não se fala, se morre.
Ocupo os instantes brancos que possuo e em instantes não os tenho mais.
Estão tão cheio do meu querer que o que não mais me pertence me sustenta.
Desejo alguém que encontre e decifre. E devore.
Não sei dar nome ao que sinto. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Estar triste é um direito.


Tenho a péssima mania de sempre querer mais do que me é oferecido.  De não me conformar com as condições que me são impostas. Talvez por isso tantas decepções. Não sei participar do mundo sem questioná-lo. Motivo suficiente para ganhar e perder e talvez perder mais que ganhar. Tenho também a mania de ser transparente. Não sei sorrir quando a vontade é chorar. Nem chorar quando a vontade é sorrir.
É provável que ande em crise constante de identidade e todas as minhas insatisfações e desencantos sejam alquimicamente transformados na inspiração com que componho textos repletos de pessimismo. Por certo, isso incomoda ao leitor feliz, aquele que aqui adentra e julgando encontrar refrigério toma, incauto, as palavras duras e angustiantes que espalho.
Falo sobre sentimentos que conheço e vivo. E o sentimento que mais conheço é tristeza. Embora tente vestir-me de aparente alegria para talvez tornar-me leve aos convivas, sou naturalmente triste.
Vivemos em uma sociedade de otimistas estúpidos, aconselhados a sorrir sempre e seguir adiante sempre sorrindo. Mas a verdade é que a tristeza nos pertence, é parte inerente da gente, como a alegria, embora ele seja vista quase sempre como uma enfermidade. E assim, basicamente fingimos sentimentos e empatias. Penso que toda essa exibição de felicidade que se vê por aí é banal e medíocre. Muito mais lucraríamos se as pessoas tivessem a coragem de ser quem são, de viver com verdade seus momentos, todos eles, sejam alegres ou tristes.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Às favas!




Cheguei àquela idade crítica onde não sou mais obrigada a suportar nada nem ninguém. Nessa hora agradeço a Deus por ser uma simples mortal, anônima, que pode entrar e sair de onde bem quiser sem dar satisfação a quem quer que seja. Foi assim que me despedi (e talvez definitivamente) esta semana das redes sociais. As maravilhosas e irritantes redes sociais. Deixei de sentir prazer em acessá-las. Deixaram de ser interessantes. É incrível a facilidade com que pessoas que você nunca viu, a não ser através da tela de um computador, tomam conta da sua vida, opinam, sugerem, ficam à espreita para te mandar ao céu ou ao inferno dependendo do que você posta. 
                     Deletei Facebook, twitter e até em meu blog passei o cadeado. Mas como sou mutante, desobrigada de pensar sempre da mesma forma, pode ser que daqui a uns dias, pense diferente e resolva voltar. Como disse alguém no twitter, “estou cada dia mais intolerante.” Entendi exatamente o que ele quis dizer. Eu também ando assim. Mesmo porque tolerância só existe se precedida de amor. A gente só consegue ser tolerante mesmo com quem ama. Tolero os que amo em todas as suas esquisitices. Perdoo e continuo amando mesmo quando me ferem.  E quando não suporto me ausento, me encolho. Morro até, pra renascer a cada olhar, a cada sorriso. 
Vou me encolher por um tempo. Encasular. E depois devo voltar, porque sempre volto. Os intolerantes provavelmente já terão me riscado de suas agendas. Não importa. Sei que os que me amam estarão à minha espera ainda que não percebam. E é para esses que sempre volto. De braços e coração abertos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Wake up and live





Todos os dias fazemos escolhas. E nem mesmo a pessoa mais calculista escapa de fazer uma escolha errada. A medida desse erro são as consequências. Bom mesmo seria nos abstermos delas, porque escolher, na verdade, tira a espontaneidade da vida. Mas não é possível. Não é racional.
Este é um texto sem hesitação ou retorno, sem pompa, nem citações. Sem expor fraquezas ou incertezas. Sem culpa, medo, choro ou riso.
Talvez haja nas suas entrelinhas alguns protestos fracos, muitas dores de cabeça. Banalidades. Silêncios. Segredos. Gostos e desgostos. Mas são apenas disfarces de uma mente pouco criadora.
 Um texto medíocre. Sem alardes. Sem fazer nem ouvir falsas promessas, sem dizer ou ouvir grandes mentiras.
O telefone não vai tocar e a mensagem não vai chegar.
Vou terminar o meu dia, sair em busca de casa, perder o caminho, distraída por dois ou três telefonemas, mas acabarei por encontrar a rua certa. Ainda bem que eu acho sempre o caminho de casa.
E o tempo de ir embora. 
Porque há sempre pelo menos duas formas  de se continuar: Por gosto ou até à exaustão.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Eclipse





 Percebo com horror que o tempo passa rápido demais e que meus sonhos vão ficando para trás, espalhados em uma história que, apesar de minha,  já nem sei mais se tenho o controle sobre ela.
Tantos planos, desejos, quereres e no fim percebo apenas que amanhã talvez nem esteja mais aqui e talvez já não faça parte dos que  amo ou dos que me desiludem. 
Enjoa-me a minha existência tão imperfeita. Sempre estive sentada à margem errada do rio, e sempre com um abismo sob os pés. Mas nunca tive coragem para pular. Antes tivesse...
Quase meio século de existência perdulária, ansiosa e inútil. Vida pela metade. Muito medo. Nenhuma certeza.  O desassossego me acompanha, dia após dia. Sempre tive a alma amontoada de inutilidades, repleta de memórias inquietas, evitando a palavra amor por medo de reconhecer em seu entorno a dor, a saudade. Coragem suficiente apenas para embalar amores mortos, embalsamados, que dão à grande distância, a ilusão de vida. Como um Dom Quixote de saias, em busca incansável pelo inexistente.
Reconheço o cinza dos meus dias. O meu mundo que nunca foi azul turquesa mesmo. E esse drama que me é peculiar certamente estará em cena até o meu último dia de vida quando, enfim,  talvez, descanse em paz.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Madrigal Melancólico




O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza.
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai.
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. 
Nem a tua impureza.
O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é A VIDA!
 
 
Manuel Bandeira
 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

E o ano termina...

O mundo cabe inteiro num breve intervalo de sonho. (Pe Fábio de Melo)


E eis que chega o momento fatídico: a contagem regressiva para o fim do ano. Hora também do inevitável balanço da vida, no período de 365 dias passados. Valeu a pena tudo que fizemos? E o que deixamos de fazer, teremos outra chance?
Concordo com o poeta quando ele diz que “foi genial o cara que teve a ideia de dividir o tempo em fatias”. Porque quando chega Dezembro, a impressão que temos é que chegamos ao limite. De tudo. Do nosso tempo, da nossa paciência, da nossa tolerância, até da nossa esperança. Aí chega um ano novinho e com ele, um novo fôlego, uma nova vontade e força para recomeçar. Todas as angústias, mágoas, decepções do ano que termina parece que vão desaparecer junto com ele. E a gente ganha novo impulso. Para planejar, amar, viver. E principalmente para sonhar, porque é o sonho que nos impulsiona. São os sonhos que fazem valer a pena recomeçar.
Às vezes, penso que o grande sentido da vida é morrer bem. Viver setenta, oitenta, noventa anos e sair daqui um pouco mais bem resolvidos. É nos percebermos competentes para dominar nossos sentimentos negativos, nossa disposição para a agressividade, para aceitarmos as frustrações que a vida nos oferece sem perguntar se queremos ou não.  É principalmente desenvolvermos a persistência, a coragem para fazer dos sonhos, metas. E a coragem para sermos quem somos sem dependermos do resultado dos julgamentos apressados que, sempre, só nos querem no chão. Aí valerá a pena ter vivido.
 Mais um ano, menos um ano. Abandono 2013 como uma roupa velha que não me serve mais. Que venha 2014. Não vou desistir de sonhar. Sinto muito, não vou. Percebo nesse “balanço” de fim de ano que não me importa o quanto não fui amada. Importa-me sim, o quanto amei. Porque apenas isso é responsabilidade minha: o quanto amei. Perceber a imensidão do amor que sentimos. Só isso já faz com que a vida ganhe todo um novo sentido.

Feliz ano novo para todos vocês!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Insustentável leveza do estar


Amava. Como amava, meu Deus! Mas a confiança nem sempre é conquistada ou garantida pela intensidade do amor. Ela era não única. Mas em sua pretensão, era assim que se sentia. Não por mal, era só porque precisava de singularidade. A uniformidade a confundia, a limitava. Mas nunca conseguiu se impor dessa forma, como sendo única. Não que não quisesse, é que há coisas que só uma intimidade mais profunda, mesmo momentânea, permite demonstrar.  Insegura, sempre oscilou entre a entrega e a descrença, o juízo e a sua perda. Desde sempre foi a vítima preferida dos acasos. Por acaso encontrou o caminho. Por acaso entrou. Por acaso permaneceu. Por acaso, ainda estava lá? Subitamente impedida de sonhar, tinha sempre a sensação de vertigem toda vez que se afastava do sentido real da vida. Perdia-se por horas em pensamentos, olhando a chuva. Nada via. A chuva era só um a confusão difusa ao fundo, uma confusão entre o espaço físico e o subjetivo, numa diluição geral de cores e sentimentos. Com pensamentos sempre embaralhados, sem nenhuma estrutura lógica aparente, observava. Mas não percebia que observava. Enquanto a gente vive, não percebe que observa. Planejava estratégias mirabolantes que não saíam do pensamento. Queria uma revolução, mas sabia que não podia romper visceralmente com a moral. Em todos os sentidos, detestá-la, ser-lhe antípoda. Era impossível para ela. Então, sutil, esperava. Mas a sutileza prenuncia a precipitação. Exauriu. Deu início à perda inexorável do que era e emergiu de uma era de buscas infindas, de tentativas de retornos e de cansaço. Em meio ao caos descobriu: o outro era apenas conexão, passagem. Seu processo era conectivo, não consubstancial.  
Finalmente, descansou em paz.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Irracionais?


Acordo sempre muito cedo e vou cuidar dos meus bichos. Três gatos, meus. Tenho uma relação pessoal com cada um deles. Sou o estímulo aliciador de sua alegria. Basta que eu saia do quarto e sou cercada por eles. Embaraçam em minhas pernas, impedindo-me de andar e, ao mesmo tempo, impelindo-me, com miados urgentes, a correr para saciar-lhes a fome de uma noite de jejum. Não raro, embaraçada neles, chego perto de um tombo. Sempre acabo sorrindo. Há entre nós um amor despretensioso, quase indolente, que não cobra, que não fere, apenas é. Entre arranhões e abraços sufocantes, nos entendemos.
Há também algumas galinhas no quintal, não minhas, mas do meu padrasto. Gosto de alimentá-las, ouvir o cacarejo feliz, enquanto catam o milho que espalho pelo chão. Vez em quando uma põe um ovo no cantinho do armário na área de serviço. Quando vejo, pego. Quando esqueço, sou pega de surpresa pelos pios de um pintinho que nasce lá em cima, indiferente ao perigo da altura. Já aconteceu mais de uma vez.  
Gosto de observar os animais. E, às vezes, me sinto uma extensão daquilo que observo. Pequena, indefesa, dependente do amor e do cuidado do outro. Só me causa angústia percebê-los finitos. A brevidade da vida desses pequenos seres me incomoda e me causa angústia. Talvez porque o entendimento que nos cabe sendo humanos, diante dos atos de amar, nascer, viver, se desintegre diante dos atos de matar e morrer. Demasiada ingênua, inábil para usar a ironia necessária e entender os movimentos da vida, deponho as minhas armas e apenas observo. 
                    São esses momentos cotidianos que me enchem de alegria. Alegria simples que me projeta uma áurea quase santa, divina. Porque eu acredito que no céu há lugar para tudo. Há lugar para as nossas rudezas e para as nossas delicadezas. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fim (ou recomeço)



Há quem saiba arrumar os sentimentos em desordem, colocá-los em uma prateleira, etiquetados, para usar quando for mais conveniente. Há quem saiba  enfeitar a cara com um sorriso fabricado e sair por aí. Eu não sei. Sou explosiva, rancorosa, ciumenta. Sou chata, possessiva, insuportável. Sou humana.
É natural então que, expulsa do aconchego em que me colocaram um dia, espaço entre a vigília e uma réstia de sonhos, me deixe levar por sentimentos ruins, que doem, amargam, tiram a paz, aquela que nunca mais tive.
Ainda se houvessem palavras doces, se houvessem palavras. Por certo o torto teria conserto. E se recorrêssemos a todas as figuras de linguagem? Ou se sublimássemos? Afinal, não é para isso que servem as palavras?
Mas não há mais nada, só o meu olhar, inerte e absorto sobre um mundo indiferente. No desejo de partir, mas na ânsia de ficar, náufraga, perdida, agonizando, agarraria qualquer corda que me fosse lançada. Mas não existem cordas...
Um porto seguro, por favor, onde eu possa ancorar a minha alma aflita, descansar minhas emoções tumultuadas. Mas não existem portos...
Hoje senti na pele a dor de ter um pedaço arrancado (era preciso). 
Hoje percebi com exatidão a importância que não tenho (era inevitável).
Hoje, em mais uma queda, me feri de forma contundente quando soube o significado da palavra substituível, descartável.

Mas ainda assim, com toda essa dor, hoje foi apenas o primeiro dia do resto da minha vida.
            

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Avesso de mim




                  Há tempo não entro aqui. Estou em uma fase de mutismo, introspecção. Falta-me assunto para quase tudo. Fujo até das conversas em família. Não saberia o que dizer sobre nada. Pensando seriamente em dar um adeus a este espaço. Não digo isso esperando que me peçam o contrário. Apenas constato que a minha falta de talento e inspiração que já era visível, acentuou-se. Sou movida pelas minhas emoções. Não produzo se não estiver repleta delas, em doses cavalares. Nessa vidinha medíocre em que me encontro pouco ou nada fluirá que mereça ser publicado aqui.
Até quando? Eu não sei dizer. Eventualmente quando conseguir ser um pouco menos racional. Quando a minha coragem de ser livre retornar. Ou, ao contrário, quando conseguir ser uma mulher pragmática, individualista e sem coração. Tenho me empenhado bastante nisso.
Talvez tenha chegado a hora de avaliar tudo que fiz até ao momento. Livrar-me de tudo que não me acrescenta nada e, quem sabe, tirar lições das escolhas, por vezes, infelizes que fiz em alguns momentos.
As decepções e sofrimentos nos dão um olhar mais refinado e passamos a perceber coisas que só o tempo mostra. É tempo de cerrar o coração. É hora de mudar. Despedir-me de algumas ilusões, e principalmente de mim, essa pessoa estranha que cultivei por longos meses e que talvez nem exista fora do meu limitado olhar. Não há o que colher dessa espera, desse plantio. A semente se perdeu. Secou.
Vontade de banho de chuva e há um prenúncio de tempestade lá fora. Quem sabe ela tenha as respostas que preciso... 
O que mais me incomoda é que quanto mais vivo, menos me conheço. Atravesso dias tranqüilos, outros como um barco em mar revolto.  Sei que lá fora a vida me espera, mas estou desanimada, com preguiça de ir até ela. Apetece-me agora apenas viver. Resta-me apenas esperar. A morte ou o fim de tudo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O preto no branco

Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.
Martin Luther King

Ontem ouvi um diálogo, entre duas mulheres, uma negra a outra branca, que me chamou a atenção. Não pelo teor da conversa, mas pelo posicionamento de cada uma em relação ao assunto que era nada mais nada menos que preconceito racial. A branca muito naturalmente declarava ser “uma branca de alma negra”, enquanto que a outra, negra, inflava o peito para dizer, cheia de orgulho que era “negra até na alma.” Fiquei pensando onde estava a atitude mais preconceituosa ali: na que coloria a alma para parecer simpática aos olhos da interlocutora ou na que reafirmava a sua condição de negra “até a alma”, negando qualquer tentativa de branqueá-la.  Concluí que, apesar da aparente negação nos discursos, o preconceito era visivelmente afirmado nos dois lados.
A ideia de mistura, miscigenação é simpática e inegável. Somos sim um povo miscigenado, multirracial, colorido. Então como entender que um povo assim continue sendo, implicitamente, racista? Simplesmente porque não há um equilíbrio interno nessa mistura. O que há é uma hierarquia de sujeitos que têm cores como já escrevi em outro texto, resquícios de um colonialismo que ainda permanece em cada um de nós. Dizer-se branco de alma negra em um espaço público, em alto e bom tom, é apenas discurso vazio sem nenhum significado. Cientificamente não há nenhuma evidência para a distinção de raças, aliás, isso já foi discutido amplamente inúmeras vezes. Mas a falta de evidências científicas que acabou fragilizando o conceito biológico de raças humanas, não evitou que esse problema mantivesse a sua relevância no contexto social. Exatamente: a questão é simplesmente política e social, tanto no Brasil como no resto do mundo.
As cotas raciais são um bom exemplo da complexidade em resolver a questão. Enquanto a CF garante a igualdade de raça, sexo ou religião, as cotas favorecem um grupo e desfavorece outro. Não existem apenas pobres negros. Há também os pobres brancos, amarelos, vermelhos. É uma forma de compensar a injustiça de séculos de escravidão, sim, mas deve ser pensada com cuidado. A importância maior dessas cotas, talvez tenha sido a promoção da reflexão sobre o assunto. E daí, às mudanças que toda reflexão promove. Nunca a injustiça causada pelo preconceito racial esteve tão no centro do debate público, e nunca houve tanto consenso sobre a necessidade de se corrigir uma injustiça.
Torço para que não demore muito esse tão sonhado dia em que a raça não será atributo necessário para a qualificação de cada um. E as cotas, de qualquer tipo, sejam absolutamente desnecessárias, pois o que realmente importará será o que cada pessoa for, falar, escrever, viver. E não a cor de suas peles. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Contabilidade X Amor



Descobri uma coisa interessante. Descobri que posso fazer uma analogia entre a objetividade da Contabilidade, minha ferramenta de trabalho, e a subjetividade do amor, embora aparentemente não haja qualquer semelhança entre os dois temas. Duvida? Pois veja. Trabalho e estudo Contabilidade. Nessa profissão é comum assistirmos à falência de empresas por mau gerenciamento de recursos. As despesas sobrepondo-se às receitas, até que o capital investido inicialmente, e que deveria aumentar com a integralização dos lucros no final de cada exercício, desaparece. É o que chamamos de “prejuízo operacional”. Inaceitável para quem quer manter-se no mercado. Prejuízo operacional é sinônimo de falência anunciada.
Com os relacionamentos acontece coisa parecida. “Investimos” o capital amor. Espera-se, com o passar do tempo, o retorno da aplicação em forma de carinho, atenção, confiança, cuidado. São as receitas do relacionamento. Em contra partida, as despesas são as brigas, as desconfianças, os ciúmes, as intrigas. Se a “receita” não for forte o suficiente para neutralizar as “despesas” a empresa estará fadada ao fracasso, à falência.
Acho linda uma frase do Pe Fábio de Melo que diz: “Amar é levar prejuízo o tempo todo.” Entendo o que ele quer dizer. E concordo que amar seja levar prejuízo. Mas precisa ser “o tempo todo”? Nada sobrevive muito tempo, levando prejuízo o tempo todo. Ninguém suporta isso. A “empresa” falece. Estanca. Esgota. Assim como na Contabilidade, nos relacionamentos de amor ou amizade, para todo lançamento a débito, tem que haver uma contra partida a crédito. Ou no fim, o balanço não fechará.  
Cuidemos melhor dos nossos afetos. Dos nossos amigos, dos nossos amores. Apesar da analogia, sentimentos não podem ser comparados a transações financeiras. Nem corações a ações da bolsa que ora sobem, ora descem.

Bem disse Saramago ao afirmar: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”